eu sou invejosa
eu não ligo que algo legal aconteceu com você. deveria ter acontecido comigo.
acredito que um dos principais passos para uma terapia deixar de ser uma conversa entre um sábio e um tolo é o que mais dá trabalho de fazer: saber apontar o que é, na gente, que precisa ser revisto.
quando me percebi uma pessoa invejosa, não demorou muito até que eu tocasse nesse ponto com minha psicóloga (quando ela ainda era uma personagem na minha narrativa; mais detalhes no texto retrasado). ela deu uma risada de quem entendia o que eu estava querendo dizer (imagino, já que nossas sessões sempre foram por texto), e, após o tempo necessário para juntar letras em uma mensagem que poderia me dar um atestado de ser humano horrível, o que eu recebi foi: “denise, essa é uma reação humana completamente normal”.
normal.
tentei contra-argumentar. não, você não entendeu! eu sou uma pessoa horrível! eu recebo boas notícias sobre meus amigos conhecendo novos continentes, recebendo mais dinheiro, tendo um ciclo cativo de amigos que estão por perto toda sexta-feira, e meu primeiro pensamento sempre se volta pra mim! sobre como eu não tenho essas coisas, sobre como não enxergo como posso ter. depois, só depois, penso como estou animada por eles — mas essa animação nunca parece ser tão genuína quanto minha insatisfação no não ter.
fui promovido e vou ganhar o dobro! [eu não tenho um plano de carreira e conto meus centavos] estamos planejando nosso casamento! [estou noiva e sem previsão finaceira de quando faremos algo sobre isso] comprei um imóvel! [nessa economia? você olhou em volta antes de dar essa notícia?] vou fazer a terceira viagem internacional do ano! [literalmente que um ônibus me atropele agora mesmo]
de início, inveja era uma palavra meio desconectada desse sentimento esquisito, dessa reação, por mais cabível que fosse.
inveja, pra mim, sempre foi meio infanto-juvenil. filme da disney, vilania de história em quadrinhos, algo que só existe em roteiros adaptados para todos os públicos, ou na justificativa mais básica pra pessoa A não ir com a cara de pessoa B. “isso é inveja de você”, já me disseram muitas vezes, quando era eu quem estava comparando o ganho do outro com minha ausência, e isso era suficiente pra gerar um sentimento de contenda no meu coração, o que acabava vazando nas minhas relações interpessoais.
é óbvio que fulano teria problema comigo.
no superman do james gunn (2025), uma cena me cativou no cinema, e não foi a lois lane sendo pressionada na parede por um david corenswet de óculos e cabelo cacheado, três vezes o tamanho dela. não, eu não sou como as outras garotas.
a cena que eu guardei foi a que o superman faz o prólogo de um quase grande monólogo, um discurso sobre como ele sabia ler o lex luthor por quem ele era:
You’re driven by envy, Luthor. You couldn’t be more obvious.
luthor, ao contrário do que eu esperaria, ao contrário de como eu acho que reagiria caso alguém tão belo, bondoso e heróico como o superman lesse minha parte feia, maldosa e vileza tão bem, responde:
você tá me falando algo que eu já sei. eu estou ciente que sinto inveja todos os dias. should we throw a party? should we invite bella hadid?
deve ter um lugar no inferno reservado pra quem gostaria de ser lois lane e acorda um dia ciente que é o lex luthor.
isso não é normal.
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é meio óbvio pra mim, mas por vezes não fica tão claro assim pra quem toma conhecimento desses meus sentimentos tão íntimos. sinto que preciso comunicar, de maneira muito clara, que eu não desgosto de nenhum dos meus amigos que já foram objeto desse sentimento. eu não torço pra que eles falhem. eu não espero que eles caiam na miséria só pra que eu me sinta melhor comigo mesma.
não, o sentimento não é esse. o sentimento é vontade de querer estar lá em cima com todo mundo.
estou com fomo.
tenho FOMO de estar em outro patamar com meus queridos amigos.
quanto mais eu destrincho o sentimento pra melhor compreensão dele, mais barbudo de cabelos grisalhos nascido em 1818 na prússia eu fico.
eu não quero ganhar o que você ganha. eu não quero que você deixe de ganhar o que você ganha. eu só quero ganhar bem também. eu não quero sua casa própria de cinco quartos, eu só quero a oportunidade de um dia, quem sabe, se eu quiser, parar de pagar aluguel. eu não quero a sua viagem pra europa. eu só quero ter capacidade aquisitiva saudável o suficiente pra que tenha de onde sobrar um pedaço, que de pedaço em pedaço pode virar uma reserva que eu possa utilizar na serra gaúcha.
nunca foi o sentimento que me remetia ao conceito simples de inveja.
não era o sentimento de querer uma mochila kiplin rosa, com os macacos nomeados por peça, quando meu pai comprava uma preta, sem marca específica e sem carisma, como se eu fosse um garoto qualquer da quarta série que nunca desenvolveu caligrafia. não se parecia com a sensação de divagar durante as aulas de geografia, pensando no que eu gostaria de mudar em mim mesma pra ser mais bonita, quando eu então pegava características de minhas colegas de turma e as desconstruía como bonequinhas de lego, a fim de montar o megazord da Menina Perfeita que eu poderia ser, se nossos corpinhos juvenis fossem customizáveis.
a personalidade da Beatriz com o cabelo da Paula com o corpo da Mariana com o rosto da Camila com o cérebro da Lídia com a casa da Isadora—
uma reação humana completamente normal.
eu não me sentia(sinto) normal. há tempos, essa nuvem turva e cinza parece ter se acomodado por cima da minha cabeça, chovendo em todas minhas relações sociais e afetivas, fazendo com que eu nunca consiga desentrelaçar minhas auto expectativas com os resultados dos feitos dos outros, não de maneira a não querer que o outro viva algo importante, mas de um jeito que me martirizo por parecer ser incapaz de fazer algo no mínimo equiparável.
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esse texto podia ser o lado B do já citado texto anterior, em que eu fiz reflexões parecidas sobre esse mesmo assunto — a comparação, a competição, o sentimento de smpre me ver como inadequada, desajustada, mais pobre, mais feia, mais atrasada em tudo. tudo que falei lá, poderia repetir aqui. tudo que repito aqui, poderia ter complementado lá.
me faz pensar o tanto que penso sobre isso. horas contabilizadas em tempo de tela em que estou pensando sobre isso. o quanto minha vida é ditada por esse sentimento, essa raiva de não ter os fins e os meios como outras pessoas tem, esse rancor de ser lembrada disso a cada nova conquista do outro, a decepção de ter esse como meu primeiro pensamento, amargando minhas relações, me tornando uma pessoa que pesa qualquer clima, uma mulher que faz chover na sua parada.
dessa vez, me peguei pensando novamente sobre isso (durante minhas férias, veja você) no meio do balança-caixão que o twitter fez com o pedro gabriel miziara, o criador de conteúdo que te chama atenção pela estética de um cool guy que planeja milimetricamente todos os móveis de sua casa nova em um bairro nobre de são paulo, só pra você perder um pouco a paciência três vídeos depois, ao perceber que não é pura criatividade, não é um estilo de vida tendo a arte como matriz, não é tão despojado como é cuidadosamente editado pra parecer ser. é só muito dinheiro. pra resumir.
vivendo uma recém mudança de casa e de estado, minha noiva, uma fiel seguidora de todas as ~~~indicações estéticas do pedro miziara, me entregou o celular dia desses com um vídeo dele aberto e disse “veja essa luminária que o pedro comprou. e essa eletrofita que ele usou pra instalar. é disso que precisamos pra nossa varanda”.
antes mesmo de ser abordada pela minha noiva no sofá da nossa nova casa, com as ideias flutuando pela cabeça dela do que o espaço poderia ser depois de ver a sala do pedro miziara, eu já evitava esbarrar no nome dele.
eu não sou o nicho dele. eu não vou ter entretenimento algum vendo um homem de bigode que já nasceu com dinheiro saindo pra comprar um tapete de 8 mil reais, pra colocar na sua sala de 50 mil reais, pra gravar, postar e ganhar mais 100 mil reais com o engajamento. toda essa disposição é o contrário de prazeroso pra mim.
pra encurtar a história, nós não teremos a luminária ou a fita elétrica do pedro miziara, seria um rombo no nosso orçamento; jamais teremos um cômodo tão legal quanto o resultado de qualquer tutorial postando pela jhenny keller, ou qualquer outro conteúdo reproduzido no tiktok que é plenamente viável pra quem tem dinheiro, ou o espaço que vem do dinheiro, ou a autonomia que vem do dinheiro, ou o material que é adquirido pelo dinheiro, ou a disposição de quem não precisa pensar tanto em dinheiro.
em um texto recente da michele contel, em sua newsletter entretanto, ela faz uma análise interessante sobre como influencers como esse viram uma sátira do próprio conteúdo, e se tornam incapazes de separar o estilo de vida do consumismo. toda indicação é fora da realidade, tudo que é adquirido é pra preencher o cenário da estética, que é produzida pra vender mais.
o que eu pontuo aqui é bem mais simples que esse estudo social-econômico:
eu também seria feliz e realizada, dando adeus à esse azedume de sentimento, se eu fizesse uns 90 mil reais líquido por mês. mas vamo que vamo.
faz parte.
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sempre fui muito consciente do capitalismo como uma Coisa.
desde a época da escola — antes mesmo dos efusivos anos de faculdade de direito em que todo mundo é meio militante, bem antes do temer core —, minha família categoricamente me taxou como socialista, sem sequer saberem exatamente o que é o socialismo — até porque, minha única “causa” à época era não gostar das propostas do nosso antigo grande vilão: o PSDB. época boa que não volta mais.
sempre tive tendências de esquerda, sempre estive no contraponto de qualquer discussão liberal-conservadora em mesa de almoço, mas era uma militância silenciosa estilo alanis guillen na novela três graças, que achava a vida do pobre tão injusta e sofrida, enquanto comia na mesa da cobertura do pai em um prédio do morumbi, mesa esta montada pela empregada, que também passou a roupa de grife que ela usava a cada capítulo.
foi só quando eu entrei no capitalismo selvagem como personagem atuante, e não só como telespectadora, que eu entendi.
ahhhh. na verdade é bem pior.
o que eu esperava, pela teoria, era uma luta de classes simples, atemporal, básica: ricos x pobres. eu não esperava que hoje a luta de classes tivesse de levar em consideração as subclasses, a luta de classes em gêneros iguais e diferentes, os ricos x super ricos x bilionários, o clt premium x o clt plano básico, as subcategorias do pobre e as catalogações novas do rico.
é um papo de pesquisa acadêmica complexo demais pra mim, que tenho como base de meus ideais sobre classe a música xibom bombom do grupo as meninas, que já me tocava o coração aos 8 anos de idade no dvd karaoke da panasonic, uma aquisição aqui em casa quando ser classe média ainda significava alguma coisa nos então parâmetros de economia brasileira.
minha irmã, hoje no ensino médio, ainda não sabe que carreira seguir. pelos últimos anos, incentivei que ela seguisse qualquer ramo da programação, sistema e computação, uma área que pra geração da minha mãe não significa muita coisa, mas que pra minha geração abraça os meus conhecidos mais bem colocados na pirâmide econômica em nossa volta.
apesar da afinidade com lógica e cálculos em geral, minha irmã nunca ligou muito pras minhas sugestões de “vira programadora, vai morar fora do país e seja feliz!”. ela chegou com um papo insistente, assim que entrou no ensino médio, de que queria fazer economia.
economia?
só conheço dois economistas: um foi meu professor na faculdade na matéria de mesmo nome, e o outro é político. e já era político quando entrou no curso.
“mas… mas… e as vagas internacionais… e a vaga de engenheira de dados na califórnia… e o dinheiro… o MUITO dinheiro que paga uma vaga de engenharia de dados…”, pensei comigo mesma, como uma mãe que vê num filho a oportunidade de realizar, através dele, tudo que não conseguiu fazer na própria vida.
pra minha irmã mesmo, só perguntei: “por que economia?”
“porque é um curso que não tem só a matemática. tem também a parte social, de classes. que eu gosto tanto quanto.”
bom. acho que nós nunca conseguiremos viajar pra paris sem precisar criar dívida pelos dois anos seguintes, eu e minha irmã.
mas ela aos 15 anos já é alguém bem melhor que eu, e às vezes isso é suficiente.
que algo bom pra se invejar: querer ser tão boa quanto ela.
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Devo dizer que é extremamente reconfortante ler tanta honestidade assim, mas me assustei! Positivamente, claro… porque na minha cabeça sempre tive essa pulga atrás da orelha, que sou pior que todo mundo e uma invejosa: acho que lendo seu texto consegui entender mais uma vez que talvez inveja seja só mais um sintoma.
Ultimamente com meu desemprego e amargor por horrores que acontecem todo dia nesse planeta, tenho me sentido muito mal com esses momentos de inveja, de raivinha em ver tanta gente estupida com tanto e outras incríveis, ou pelo menos honestas, com tão pouco.
É uma coisa normal, de fato, mas estranhamos tudo que é normal demais às vezes. Também falava com a minha última psicóloga sobre isso e tirei muito da minha culpa, mas ela continua espiando.
Obrigada por palavras tão sinceras e sem filtro, de verdade. Isso é o que eu quero ler e consumir na internet, não influenciador rico brigando com robô ou com casa de milhões de reais hahahahha
fora isso, normar, tudo isso é normar